Continuando com as diferenças e curiosidades entre os cursos de odontologia do Brasil e dos Estados Unidos, vamos comentar sobre a parte clínica do programa da Boston University School of Dental Medicine (BU).

A parte clínica se inicia no segundo ano do programa, enquanto as aulas teóricas e as provas continuam. É um desafio, pois precisamos coordenar pacientes, estudos e vida ao mesmo tempo.

As rotations, que são uma espécie de estágio que fazemos em determinadas especialidades, com duração de uma a duas semanas, muitas vezes em locais diferentes da BU, também acontecem nessa fase do programa. Durante as rotations, não assistimos as aulas regulares presencialmente, pois temos as aulas, provas e seminários da rotation que acontecem ao mesmo tempo com grupos pequenos de alunos. Por isso, a importância de as aulas serem gravadas. Assim, podemos ter acesso ao conteúdo apresentado no curso regular. Na BU, as rotations são de odontopediatria, pronto-atendimento, cirurgia oral e radiologia oral. Existe também a de geriatria, mas é opcional.

A clínica da BU funciona de 8:30 às 19h, durante a semana, e de 8:30 às 17h, aos sábados. O intervalo para almoço é de uma hora. Na clínica atendemos pacientes das mais variadas nacionalidades. Se o paciente e o aluno não puderem se comunicar, existe um equipamento portátil que permite que vídeo chamadas sejam realizadas e um intérprete viabilize a consulta. Essas chamadas também podem ser realizadas por ligações telefônicas. Eu particularmente não precisei utilizar esse equipamento, pois os pacientes que atendi eram do Brasil, Cabo Verde, Estados Unidos e países de língua espanhola.

Dra. Flavia Velasque no laboratório da BU.

Uma curiosidade é que no início de cada sessão clínica na BU temos os famosos rounds, que são pequenos grupos de alunos reunidos com os seus supervisores para discutir sobre cada paciente, incluindo história demográfica, médica e o procedimento a ser realizado naquela sessão. Daí a importância do conhecimento médico e das medicações aprendidas durante as aulas teóricas.

Na clínica, os prontuários são digitais, mais extensos e os consentimentos muito levados a sério. As regras para manter a privacidade do paciente, incluindo os dados e as imagem, são rigorosamente seguidas. Por exemplo, não podemos tirar fotografias de pacientes com o celular e nem compartilhar dados que identificam os pacientes, assim como suas imagens por e-mail. Se for necessário enviar um e-mail sobre o paciente, esse deve ser redigido de forma a não identificar o paciente, mencionando por exemplo, o número do prontuário, porém, jamais, o nome do paciente. Existe outra forma eletrônica de envio, que protege o paciente, o aluno e o professor, que é utilizado na BU, o DataMotion. O cuidado com a ética e a proteção contra processos judiciais são bastante enfatizados durante os procedimentos clínicos.

A clínica da BU está passando por um processo de modernização. Os equipamentos odontológicos terão câmeras intrabucias acopladas, equipamentos piezoelétricos e muito mais. Mas, eu atendia na clínica antiga, bem parecida com as clínicas das escolas de odontologia brasileiras. Na clínica tínhamos disponíveis câmeras intrabucais portáteis como a Omnicam e vários equipamentos CAD-CAM, disponíveis para os alunos utilizarem durante a confecção das restaurações indiretas. Na BU possui uma gama de materiais à disposição. Limas e brocas são descartáveis. Materiais de consumo, como resina composta, adesivo dentinário, ataque ácido, alginato, gesso, dentre outros, são de uso individual a fim de evitar contaminação cruzada entre pacientes. Confesso que isso me incomodou no início, pois pensava no desperdício e no volume de lixo produzido em cada sessão clínica. Lembrava como era difícil obter material para as escolas brasileiras, mas depois me acostumei.

Imagem do laboratório com microscópio para treinamento.

Com relação aos procedimentos clínicos, menos procedimentos são exigidos para se graduar, afinal, não passamos tanto tempo na clínica como no Brasil. Mas, mesmo assim, são bem numerosos. Os alunos podem planejar e realizar implantes de casos mais simples. Na BU, todos os implantes instalados pelos alunos da graduação são realizados com o auxílio do guia cirúrgico prototipado ou do sistema X-Guide, o qual guia a instalação do implante a partir de um GPS.

Além dos procedimentos clínicos, os alunos da BU realizam procedimentos laboratoriais para os pacientes, que vão desde a confecção de moldeiras de clareamento à montagem de dentes para próteses totais e parciais. E é claro, cada etapa laboratorial é avaliada.

As atividades clínicas nos preparam para o mercado odontológico dos Estados Unidos, onde as clínicas possuem equipamentos digitais e tratam pacientes de diferentes nacionalidades. As atividades clínicas também nos preparam para as provas do The Commission on Dental Compentency Assessments (CDCA), pois há uma etapa clínica, ainda exigida por alguns estados americanos, para que a licença odontológica seja obtida.

Por fim, as duas experiências, no Brasil e nos Estados Unidos, foram de grande valia para a minha formação. Adquiri muito conhecimento na BU, mas, sem dúvida, apesar das dificuldades encontradas pelo curso oferecido no Brasil, prefiro um programa mais longo, o qual permite o melhor desenvolvimento das habilidades manuais.

Postagem feita pela Dra. Flávia Velasque, DMD Boston University Class of 2020.