Diversity

Ser aluno numa escola de odontologia nos Estados Unidos é uma experiência extremamente rica sob os pontos de vista pessoal e profissional.

Diversas escolas dos Estados Unidos oferecem curso de odontologia para dentistas estrangeiros, a fim de que sejam treinados conforme os modelos da odontologia americana e adquiram a licença odontológica para trabalhar nas clínicas nos estados americanos.

Diferentemente do Brasil, nos Estados Unidos encontramos imigrantes por toda parte, e essa realidade não é diferente nas escolas de odontologia. Nessas, podemos encontrar professores, alunos, funcionários e pacientes das mais variadas nacionalidades, com as suas particularidades e diferenças que enriquecem o nosso convívio social e aprendizado.

No Advanced Standing Program (AS Program) ou curso de odontologia para dentistas internacionais (validação de diploma ou processo de revalidação), como o nome já diz: um curso para dentistas que se graduaram em um país que não nos Estados Unidos. Portanto, é um programa muito rico em termos culturais. Quanto mais alunos são aceitos pelo programa, mais rica tende a ser essa diversidade, pois as universidades têm mostrado cada vez mais o interesse em representar grande número dos países do nosso globo.

Eu tive o privilégio de estudar numa escola super comprometida com a diversidade social e cultural, com vasta representatividade dos mais variados países. Estudei na Boston University School of Dental Medicine (BU) durante dois anos para revalidar o meu diploma brasileiro nos Estados Unidos. Foram dois anos de muito aprendizado na área odontológica, porém, maior foi o aprendizado para a minha vida pessoal.

A BU oferece aproximadamente 85 vagas para dentistas internacionais a cada ano, além das vagas para os 120 alunos que cursam o programa regular. Esse último, com duração de quatro anos, é cursado por nativos na sua maioria. Mas, como nos Estados Unidos temos muitos imigrantes, é bastante comum que esses nativos sejam filhos de imigrantes e a primeira geração nascida nos Estados Unidos. Os dentistas internacionais também têm o privilégio de estudar e conviver com os alunos dos diversos anos do curso regular, e os outros dentistas internacionais, que não da sua classe, o que contribui enormemente para o nosso aprendizado sobre outras culturas.

Toda essa rica experiência começa muito cedo para os dentistas internacionais. Ainda como candidatos, participamos de uma entrevista para sermos aceitos no programa e, desde a entrevista, já temos a oportunidade de sermos introduzidos à essa diversidade, seja pela interação com os entrevistadores, funcionários e alunos da escola, ou pelos candidatos entrevistados no mesmo dia.

A minha turma (AS 2020) era formada por 85 alunos vindos de mais de 24 países diferentes. Alunos da Albânia, Alemanha, Armênia, Brasil, Canadá, China, Cuba, Egito, Gana, Israel, Polônia, Síria, Ucrânia e muitos outros. Éramos apenas três brasileiros. No início tendemos a ficar mais perto dos que têm uma cultura similar à nossa ou dos que conhecemos durante o processo de seleção; mas, com o passar do tempo, ficamos mais à vontade com as diferenças e passamos a nos misturar mais, pois tomamos conta de que, apesar das diferenças, todos somos iguais, e que as diferenças mais significativas vão além da cultura, e o que importa mais é a personalidade de cada um. Na medida em que o programa acontece, passamos a conviver e a estreitar mais os laços de amizade com os que se parecem mais com a nossa essência, independentemente da cultura.

A oportunidade de conviver com essa diversidade cultural será inesquecível para mim. A BU é uma escola que favorece a mistura entre os povos, organiza eventos com todos os alunos, internacionais ou não, realiza anualmente eventos como o chamado Multicultural Night organizado pela ASDA Diversity & Inclusion Committee, onde pratos típicos, músicas, danças e trajes dos diferentes países são mostrados pelos alunos, professores e funcionários da escola. Além das comissões que representam os diversos povos formadas por alunos e professores.

A vida na BU foi muito importante para que eu passasse a valorizar mais o Brasil. Alguns estudantes enfrentam obstáculos em seus países de origem que são, para os brasileiros, inaceitáveis e/ou inimagináveis. A riqueza cultural vivenciada também me ajudou a entender e a identificar melhor alguns comportamentos, que nós brasileiros temos, e que foram introduzidos pelos imigrantes japoneses e europeus.

Por fim, o maior aprendizado foi conviver com as diferenças culturais e aceitá-las sem julgamento, entendendo que somos todos seres humanos com diferentes origens, mas, principalmente, com diferentes personalidades. A grande dica é observar, para saber até onde vai o limite do próximo, sempre respeitando-o para que o convívio com todos seja o mais harmonioso possível. No final do programa, sem dúvida alguma, passei a ser uma pessoa melhor, mais madura e mais preparada para aceitar e admirar as diferenças sociais e culturais dos povos. 

Contribuição: Dra. Flavia Velasque, DMD Boston University Class of 2020